jan
27
2012

Audição: cuide desse sentido

De acordo com a Organização Mundial da Saúde 10% da população do globo tem algum grau de deficiência auditiva. Só no Brasil estima-se que existam mais de 15 milhões de pessoas nessa situação a maioria não dá ouvidos às suas dificuldades para captar toda a sonoridade do mundo e ignora que deixou de ouvir bem. Há ainda 350 mil brasileiros com surdez profunda que, sem a ajuda de aparelhos, vivem mergulhados no absoluto silêncio, de acordo com os últimos levantamentos do IBGE segundo os quais, de todas as deficiências que atingem os sentidos, a auditiva é a que mais afeta nossa população.

Em todo o ruidoso planeta, o problema só tende a aumentar, como alerta a organização não governamental Hear the World, com sede em Londres. Nos próximos oito anos o número de indivíduos que não ouvem bem deverá duplicar. A culpa, em parte, é do aumento da expectativa de vida, com uma população mundial cada vez mais idosa. Mas só em parte: em princípio a audição é um sentido sem prazo de validade, que seria capaz de perceber o mais baixo zunido por muitos anos se não a castigássemos com tanto barulho.

E aí vem o outro lado da questão leia-se tocadores de MP3, festas rave, trios elétricos, baladas, a poluição sonora nas cidades, a rotina estrondosa que começa na juventude. Não é de estranhar que a comunidade científica esteja de orelhas em pé, captando qualquer sinal de esperança para resolver as questões auditivas. Para os casos graves a aposta é o desenvolvimento de terapias genéticas capazes de regenerar as responsáveis pela percepção dos sons as células ciliadas. Já se ouvem por aí resultados positivos.

Pesquisadores da Universidade de Michigan, nos Estados Unidos, deram nova vida a essas estruturas em testes com mamíferos, ativando um gene conhecido como Atoh1. É mesmo para a gente gritar comemorando, uma vez que, danificadas, essas células morrem para todo o sempre. “Outra grande esperança é o uso das tão comentadas células-tronco, mas aí mora um desafio, o de criar tecnologia para transformá-las nas tais células ciliadas do corpo humano”, diz o médico Arthur Castilho, presidente da Sociedade Paulista de Otorrinolaringologia.

Em tubos de ensaio, cientistas da Universidade Stanford, também nos Estados Unidos, chegaram à proeza. “Entre cinco e dez anos usaremos essa terapia para resolver de uma vez o problema da surdez”, acredita Stefan Heller, líder do estudo, em entrevista à SAÚDE!. Tomara que estejamos ouvindo a verdade. Com as terapias genéticas e o uso de células-tronco os cientistas sonham alto, já que têm como meta reconstruir áreas danificadas do aparelho auditivo humano.

Mas não se pode considerar menos ambiciosos os planos de outros pesquisadores que pretendem substituir os órgãos deficientes por ouvidos biônicos. “Em alguns casos, com a ajuda de dispositivos minúsculos, recuperamos completamente a audição. Em outros devolvemos boa parte da capacidade auditiva, o que não deixa de aumentar muito a qualidade de vida”, explica o otorrinolaringologista Arnaldo Guilherme, da Universidade Federal de São Paulo.

Tanto os aparelhos para o implante coclear, que procuram substituir as funções da cóclea estrutura que seria o palco principal do show de efeitos sonoros do cotidiano , quanto as próteses auditivas evoluíram. “Esses dispositivos, por exemplo, possuem um microchip que identifica o nível de ruído de um ambiente e seleciona automaticamente as faixas sonoras que precisam, de fato, ser compreendidas pelo usuário, como a da voz dos interlocutores”, descreve o médico Luiz Carlos Alves de Sousa, presidente da Sociedade Brasileira de Otologia.

O irônico é que por trás dos avanços nos aparelhos de surdez está a mesma tecnologia que contribui para o crescimento de casos de perda de audição. Os microchips que proporcionam essa seleção sonora são os mesmos presentes em um potencial inimigo dos ouvidos, o tocador de MP3. Claro, eles são bárbaros para quem aprecia música desde que sejam usados você vai ouvir outra vez a máxima saudável com moderação.

Um estudo conduzido nos Estados Unidos pela Associação Americana para Fala, Linguagem e Audição (ASHA, na sigla em inglês) revela: mais da metade dos estudantes do ensino médio habituados aos fones apresenta algum sintoma de surdez. Nos adultos a taxa de diminuição de audição entre os usuários de MP3 alcança os 35%. “Culpa do alto volume que esses equipamentos portáteis podem alcançar algo em torno dos 120 decibéis, quando a recomendação médica é de que os ruídos não ultrapassem os 85″, aponta a fonoaudióloga Iêda Russo, da Santa Casa de São Paulo.

Para evitar problemas a entidade recomenda a fórmula 60-60, ou seja, os usuários não devem ouvir músicas acima de 60% do volume máximo por mais de 60 minutos. Nossos ouvidos suportam com tranqüilidade sons de até 85 decibéis, acima disso já correm perigo. Se o barulho é súbito e intenso, como o estouro de um rojão por perto, o dano auditivo é imediato. É o chamado trauma sonoro, capaz de romper o tímpano. Quando o rasgo nessa membrana é pequeno o indivíduo pode nem sequer notar, até porque o tecido logo se recupera sozinho.

Agora, se o tímpano vira um farrapo, os médicos precisam realizar uma espécie de plástica que nem sempre funciona 100%. No entanto, talvez bem pior do que o trauma repentino seja a exposição contínua à barulheira. Aí, as células do ouvido se danificam aos poucos, mas inexoravelmente. “Quando nos damos conta estamos ouvindo menos”, lamenta Altair Cadrobbi Pupo, diretora da faculdade de fonoaudiologia da Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC-SP).

Quem pretende enfrentar o som nas alturas de uma balada, de um show ou seja lá do que for deve usar IPIs, os populares protetores de ouvido. Eles diminuem a intensidade do barulho e da agressão. Atire a primeira pedra quem nunca terminou uma sonora noitada com um zumbido persistente, sinal inequívoco de que seus ouvidos saíram machucados do programa?

Fonte: Site Revista Saúde

 

 

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